domingo, 18 de agosto de 2013

Escuridão - parte I


O peso da mochila acrescido ao da criança deveria ser muito pra ela, mas Alice estava usando suas enferrujadas habilidades telecinéticas, e embora sem prática aquilo usava apenas uma fração mínima do seu poder. A disciplina exigida pra manter seus escudos erguidos enquanto sondava o entorno por ameaças cobrava muito mais. Durante toda sua vida, só usara seus poderes perto de Bianca. Agora percebia o quanto isso a havia limitado.

E por falar nisso, Bianca devia estar enlouquecendo nesse exato minuto.

Aguenta Bi... Volto pra casa assim que puder.

Vinte minutos depois avistou o que parecia ser uma caverna e apressou o passo em direção contrária. Pelo que lembrava de seus pesadelos, coisas piores que morcegos se esconderiam lá. Expandiu seus sentidos mais longe e quase gemeu de alívio quando pressentiu água. O bosque estava escurecendo vertiginosamente rápido e era questão de tempo até que Morte rastejasse pelo lugar. Os pássaros já haviam silenciado, sabiamente tornando-se invisíveis.

Quando finamente o lago surgiu à sua frente suor frio escorria por suas costas, menos pelo esforço do que pelo medo que aquele silêncio opressivo lhe causava.

Ela sondou a vastidão escura à sua frente. No alto o céu agonizava; o púrpura sangrento devorado rapidamente pela escuridão. Um último raio de sol tocou a superfície de uma larga pedra cravada como iceberg quase no centro do lago.

Alice inclinou um pouco a cabeça tentando decidir como chegar lá. Moisés abrindo o mar vermelho ou Jesus caminhando sobre as águas. Uma rápida sondada psíquica no lago lhe disse que este era muito mais profundo que imaginara. Com um dar de ombros ela começou a caminhar até a pedra. Suas botas tocando a superfície da água como faria no asfalto.

Por ter realizado essa façanha na piscina quando era criança, todos os empregados fugiram da casa gritando “bruxa”. Que nenhum tenha voltado para receber o pagamento devido mostrou o quão aterrorizados eles ficaram. Naquele dia seu pai mandou drenar a piscina apenas para encontrá-la cheia no dia seguinte. E isso aconteceu novamente e novamente, até que seu olhar fechou-se sobre o rosto dela com resignação.

“Bem – havia murmurado -, suponho que é preferível a água que o fogo”.

Sua afinidade com a água era apenas... Tudo.

Durante muito tempo, ela e Bianca se convenceram de que era uma sereia e Alice passou um longo tempo dentro da piscina esperando – e temendo – que uma cauda aparecesse. Quando isso não ocorreu, empreenderam uma fuga para a praia. A cauda nunca apareceu e em conseqüência de sua aventura, ficou um mês de castigo, trancada no quarto. Mas seu poder sobre este elemento foi o único dom que nunca renegou.

Finalmente alcançou a pedra e ficou aliviada ao notar que a superfície emersa era quase plana e maior do que imaginara. Com cuidado deitou a criança adormecida na pedra após envolvê-la num dos grossos cobertores de lã, deixando o outro de lado. Sua jaqueta de couro sintético a mantinha quente o suficiente. Em seguida alcançou o pão e algumas frutas e comeu rapidamente enquanto jogava um olhar de culpa sobre a criança.

- Acredite em mim pequena... Melhor dormir até amanhã.

Com um suspiro deitou-se de bruços sobre o outro cobertor e preparou-se para vigília. Havia pegado emprestadas várias facas, das casas que abordara. Mas contra as ameaças que temia nesta noite manchada de sangue, apenas a água a protegeria.

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