domingo, 24 de março de 2013

Travessia



- Seus pais ligaram pra você, mas, como sempre, estava ocupada demais pra atender ao telefone.

- Quer dizer que sua secretária ligou para mim – seu coração contraindo quando não deveria sentir mais nada.

Os lábios de dona Antônia comprimiram-se em uma fina linha. Isso só a tornou menos atraente.


- Menina ingrata! Você sabe o quanto eles são ocupados. Prometeram ligar mais tarde.

Com uma experiência obtida através de anos de abandono, Alice conseguiu manter seu rosto impassível diante da mentira. Houve uma época em que teria esperado ansiosa durante horas ao lado do telefone por uma ligação que nunca viria. Esse tempo havia acabado. Havia coisas piores do que ter pais que a ignoravam e Alice tinha consciência demais do mundo à sua volta pra continuar a ter pena de si mesma. Mesmo que seu estúpido coração ainda sentisse dor com isso.

Empurrando a governanta para fora do quarto sem nenhum pudor, Alice sorriu docente.

- Felizmente você é paga para me fazer feliz, então não se oporá a esperar a ligação enquanto me divirto, certo?

O rosto da governanta ficou rubro de indignação.

- Eu não sou...

- Minha empregada? – Alice interrompeu. – Sim. Você é. E seu emprego consiste exclusivamente em manter minha existência fora do radar de meus pais. Assim, se começo a ligar pra eles, tipo, vinte quatro horas por dia pra exigir sua demissão, quanto tempo acha que vai durar nesse emprego?

- Eles não fariam isso! Sou excelente...

Sua voz morreu quando deu a volta e retornou ao quarto.

- O que está fazendo? – uma nota de pânico na voz.

Alice agarrou o telefone e discou o número da secretária de seus pais.
- O que acha? Estou ligando para meus amorosos pais...

O telefone foi arrancado de suas mãos e desligado violentamente.

- Você não pode! Eu...

- Não Posso?

Fúria inundou o quarto como uma onda maligna fazendo as paredes tremerem. A governanta foi empurrada para fora do quarto, seus pés mal tocando o chão, até bater violentamente contra a parede no outro lado do corredor.

Ao longe Alice pode ouvir o grito assustado de Bianca, enquanto o gato fugia do quarto; um borrão em movimento. Mas sua mente estava distante agora. Como se atraída por sua fúria a visão invadiu sua mente, inundando-a em pesadelos.

O Antigo estava atacando outra vila e os gritos de dor ecoavam em seus ouvidos até que tudo o que desejava era bater a cabeça na parede até perder a consciência. Ela empurrou os escudos que aperfeiçoara durante anos, forçou seu coração a reduzir o ritmo cardíaco e sua mente a se acalmar enquanto observava a carnificina. Desapaixonadamente.

Em sua visão o Servo mergulhou sobre um grupo de homens e mulheres que corriam por suas vidas, suas asas letalmente afiadas se estendendo ao comprimento máximo enquanto ele empreendia um vôo rasante à altura de seus pescoços. Em um instante eles corriam; no outro suas cabeças rolaram, separadas de seus corpos. O Servo seguiu adiante sem hesitar, sangue escorrendo de suas gloriosas penas, a morte o acompanhando a cada passo.

E a todo o momento, como uma música de fundo, Alice sentia o Antigo observando o trabalho de seu escravo, seus sentidos afiados esperando por uma única emoção sua. Necessitando senti-la próxima a Ele, mesmo de uma forma tão doentia. Ela reforçou seus escudos, manteve o horror trancado dentro de si, recusando-se a lhe dar a satisfação de conhecer seu tormento.

Abençoadamente a vila era pequena e o macabro trabalho do Servo logo estava encerrado. Alice recusou olhar para os corpos mutilados, ignorando a horrível realidade de corpos infantis quebrados, suas pequenas vidas interrompidas. E então ele estava caçando novamente...

O pescoço da anciã foi brutalmente quebrado, o Servo avançou para a criança e o escudo de Alice fraturou. Porque a pequena menina, com seu cabelo negro e olhos azuis assombrados, era um retrato dela mesma quando criança. Perdida, machucada e cercada pelo mais absoluto abandono.

Não o faça, ela suplicou. Por favor, não a machuque.

Um erro irrevogável. Um instante depois Ele estava lá, tendo-a sentido de algum modo. Enquanto o Antigo olhava para a criança, ela prendeu a respiração até que seus pulmões arderam por ar. Finalmente ambos recuaram, abandonando a vila destroçada sem um último olhar.

A visão deveria ter sumido, mas Alice não estava pronta pra deixá-la ir. Pela primeira vez ela segurou firme, seus olhos fixos no pequeno corpo inconsciente. Perdida, machucada, abandonada...

Ela deu um passo adiante necessitando tocar a menina, confortá-la. O ar à sua frente curvou, sobrecarregado com magia. Em algum ponto de sua mente podia sentir Bianca tentando chegar até ela; o arquejo horrorizado da governanta caída no corredor.

A criança fez um movimento débil, como se lutasse pra despertar. Acordaria pra encontrar-se cercada de ruínas e cadáveres. Perdida, machucada, abandonada...

Alice deu outro passo. E outro... O espelho na parede em frente pulsou com energia, chamando-a, atraindo-a. Uma parte dela hesitou assustada, sabendo que estava pra atravessar um limite impossível de retornar. No outro lado a criança choramingou.

Perdida, machucada, abandonada...

Alice atravessou.