segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Pai



Alice ficará bem.
A afirmação passava e repassava em sua mente. Uma ordem. Uma prece.
Ele foi testemunha durante anos dos poderes de sua filha. Ouviu os relatos aterrorizados e supersticiosos dos empregados. Nada nem ninguém poderiam feri-la.
Olhou para o quarto quase espartano em sua simplicidade. Não era o quarto de uma adolescente. Não era o ambiente de uma garota feliz. Aproximou-se do espelho e tocou a superfície fria com uma curiosidade mórbida.
A governanta havia descrito de forma bem eloquente como Alice havia atravessado àquela superfície. Estava fazendo as malas naquele instante e seguiria na manhã seguinte para tratar-se numa clínica de repouso. Com um psiquiatra de sua escolha. Óbvio, seria generosamente recompensada por isso.
Após tantos anos Carlos ainda se surpreendia com a facilidade com que o dinheiro podia comprar algumas pessoas. Ele passara as últimas horas conversando com dois juízes e um promotor. Em poucas horas o delegado Malta estaria neutralizado. E se ousasse incomodar sua esposa novamente...
Não pense nisso... Perderá o controle...
Controle era tudo. Controle garantia que sua esposa permanecesse estável e feliz. Controle impedia que o abandonasse.
Com o pensamento suas mãos cerraram em punhos e por muito pouco não socou o espelho até que se estilhaçasse. Passara os últimos anos assistindo as débeis tentativas de sua esposa em afastar-se dele. Como se algum dia fosse permitir que acontecesse. Ela era sua. Sua mulher. Sua amante. Seu coração. Os homens que tentaram afastá-la foram neutralizados rapidamente, fosse pelo dinheiro, fosse pela persuasão. E ele realmente podia ser persuasivo. Havia pelo menos três homens que necessitaram de fisioterapia depois que terminara com eles.
E as mulheres... Aquelas putas ordinárias que Adriana jogara sobre ele. Como se pudesse preferi-las a ela. Cinco minutos assistindo as ridículas tentativas de sedução daquelas mulheres e tudo em que podia pensar era em Adriana. Seus olhos, seu corpo, sua boca. Sua.
O pronome possessivo simplesmente não o abandonava. Ela pertencia a ele. E odiava que fosse capaz de suportar a ideia de que outra mulher o tocasse quando ele seria capaz de matar qualquer homem que se aproximasse dela. Quando fora capaz de afastar a própria filha para não perdê-la.
Sua filha. Perdida em algum lugar no maldito espelho.
Carlos apoiou o corpo contra o espelho e lutou contra a pequena chama de amor em seu coração que nunca pudera sufocar totalmente. A única parte de si que não pertencia a sua esposa.
- Esteja bem, querida. Por favor, esteja bem...
E pela primeira vez, em oito anos, chorou sua perda.