sábado, 2 de junho de 2012

Prólogo



Rio de Janeiro, 2005.

         Sua filha estava tendo pesadelos de novo. Carlos observou pela porta entreaberta como ela revolvia os lençóis, falando naquela língua assustadora que ele nunca pode identificar. E quanto mais ela se agitava, mais objetos levitavam e gravitavam em volta dela. Ela gritou e um tênis foi arremessado em sua direção, atingindo a porta com violência. Ele sabia que devia despertá-la, mas não podia se obrigar a entrar no quarto quando ela estava assim. O medo que lhe inspirava sobrepujava qualquer preocupação paternal que pudesse ter.
         Fechou a porta com cuidado e caminhou para a cozinha odiando o silêncio à sua volta. Os empregados haviam se demitido em massa. De novo. Ele já havia perdido a conta de quantas vezes isso havia acontecido. Provavelmente seu inconsciente o protegia da informação, tentava diminuir o tamanho da catástrofe.
         Com mãos trêmulas preparou um chá de camomila para a esposa. Ela estava trancada no quarto há horas, com aquele olhar perdido que o assustava. Afastando-se do mundo. Afastando-se dele. Isso era outra coisa que odiava. O pensamento de perdê-la. Ela era tudo pra ele desde a primeira vez que a viu, aos treze anos, dando um murro no Olavinho Duarte. O pequeno canalha havia feito chorar sua amiga, chamando-a de gorda, e Adriana quebrou o nariz dele. Apaixonara-se por ela fulminantemente e passara os seguintes dois anos lutando para conquistá-la. E quando finalmente a conquistou...  Bom, simplesmente não havia jeito de deixá-la escapar.
         Ele a consolou quando ela perdeu os pais num trágico acidente de carro e, dois anos depois, ela o apoiou quando seu pai morreu de câncer e sua mãe o seguiu, poucos meses depois, vitimada por uma tristeza incurável. Tão marcadas pela tragédia como foram suas vidas, ainda assim conseguiram ser felizes. Porque tinham um ao outro. Às vezes ele se perguntava se haviam sido punidos por serem tão imensamente felizes num mundo onde tão poucos alcançavam a felicidade. Como sua vida juntos era tão perfeita, haviam começado a desejar ardentemente um filho. O dia em que Adriana soube que estava grávida foi o mais feliz de sua vida. Também foi o último em que ela esteve verdadeiramente feliz. Logo em seguida começaram os pesadelos.
         Suas mãos não paravam de tremer. Ele pensou melhor. Tomou o chá que fizera para a esposa; preparou outro. Quando entrou no quarto ela estava na mesma posição em que a deixara, sentada ao lado da janela, o olhar vazio.
         - Trouxe seu chá, querida – ele disse, depositando um amoroso beijo em seu rosto.
         Ela não reagiu. Não pareceu sequer perceber sua presença.
         O coração de Carlos se contraiu de dor. Ele deixou o chá intocado sobre a cômoda e ajoelhou-se a sua frente tomando seu rosto entre as mãos, obrigando-a a encontrar seu olhar.
         - Vai ficar tudo bem, meu amor. Superaremos.
         Os enormes olhos azuis pousaram nele, já brilhantes de lágrimas.
         - Nada vai ficar bem – uma lágrima caiu, logo outra. – O que fizemos pra merecer isso?
         - Nada! – ele puxou-a de encontro ao peito, ocultando seu rosto em lágrimas. Não podia vê-la chorar. Não queria vê-la chorar nunca mais. - Ouça querida. Estive pensando... E se fizermos uma viagem?
         - Só nós dois – acrescentou depressa quando sentiu a tensão atravessando o corpo da esposa. – Podemos ir a Paris. Fomos felizes lá, lembra? Em nossa lua de mel.
         Ela ficou calada tanto tempo que Carlos receou que sua mente tivesse se afastado de novo. Mas então sua Adriana respondeu no menor dos sussurros:
         - Foram os dias mais felizes de minha vida.
         Ele se permitiu respirar, aliviado. Então havia uma chance de convencê-la.
         - Podemos partir o mais rápido possível. Uma segunda lua de mel.
         - Mas... – Adriana se afastou relutante do refúgio de seus braços para poder olhá-lo nos olhos, dividida entre a esperança e a aflição. – Não podemos deixá-la sozinha...
         - Claro que não! Contratarei os melhores profissionais para cuidar dela.
         O brilho nos olhos azuis apagou e ele quis gritar de frustração.
         - Eles fugirão – ela murmurou. – Como os outros.
         - Não! – Ela não desistiria. Ele não permitiria. – Os outros não faziam idéia com o que estavam lidando. Sempre fomos muito cuidadosos em ocultar isso. Foi um erro. Explicarei tudo dessa vez... Farei uma entrevista rigorosa.
         - Mas... – ela ainda não se permitia acreditar. – E se não conseguirmos encontrar ninguém adequado?
         Ele teria rido se não estivesse tão tenso.
         - Querida, ficaria surpresa com o sangue frio que um salário realmente alto pode comprar. Os outros foram pegos de surpresa... Só isso. Eu cuidarei disso o mais rápido possível. Encontrarei pessoas competentes para cuidar dela e, então, iremos.
         Ela mordeu de leve o lábio inferior e o gesto atraiu o olhar dele para sua boca.
         - Não gosto disso – ela se levantou e começou a andar de um lado para o outro, do modo como sempre fazia quando estava inquieta. – Não gosto da idéia de deixá-la sozinha com estranhos. E se fizerem mal a ela?
         Dessa vez Carlos riu. Não pôde evitar.
         - Adriana, acredita realmente que alguém poderia fazer mal a nossa filha?
         Ela parou de andar e se permitiu um riso nervoso.
         _ Sim, claro. Tem razão! – e então um brilho de pânico atravessou seu rosto. – E se... E se ela machucar eles?
         Ele eliminou a distância entre eles e a abraçou com força, recusando-se a permitir que ela se afastasse novamente.
         - Amor, nossa filha não vai atacar ninguém. Ela apenas... Tem um temperamento forte quando se sente ameaçada. Vou me certificar de que entendam que devem ficar longe dela.
         - Um temperamento forte? – Um brilho de humor atravessou os olhos azuis e inesperadamente ela sorriu. Um sorriso genuíno como Carlos não via há anos. E por Deus, para vê-la sorrir assim de novo ele faria qualquer coisa.
         - Acredita mesmo que isso vai dar certo? - Ela perguntou, esperança brilhando em seus olhos pela primeira vez.
         - Sim. Ficaremos bem – ele jurou.
         E quando a beijou apaixonadamente, com o desejo que nunca pôde evitar sentir por ela, mesmo em seus piores dias, ele percebeu que faria qualquer coisa pra ver sua esposa feliz novamente. Qualquer coisa. Mesmo sacrificar sua própria filha.

2 comentários:

  1. sem palavras...me envolveu
    do começo ao fim!


    saio daqui pensativa.

    Beijo

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  2. Obrigada pela visita e pelo comentário.

    beijo

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