sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Interrogatório


- Sua filha desapareceu há seis dias – disse brutalmente. – Não há pedido de resgate e nenhuma pista do que possa ter acontecido a ela. As câmeras de segurança registram a presença dela na casa durante o dia todo. E entre as dezoito horas e seis da manhã seguinte ninguém saiu ou entrou. Não há qualquer indício de como ela pode ter desaparecido.
Observou friamente o casal, mas ambos mantinham uma calma expressão de paciência. Nenhum conflito. Nenhuma ansiedade. Era como se discutissem sobre o tempo. Eles não estavam preocupados. Nem um pouco. E isso o deixava realmente puto.
Bruscamente Carlos Castelli alinhou o corpo e inclinou-se para ele decidido.
- Como disse delegado, não há evidências que ela tenha sido sequestrada. Onde quer que Alice esteja, está por conta própria.
A mandíbula de Pedro caiu com o espanto; então fechou bruscamente de indignação.
- Onde quer que sua filha esteja obviamente está por conta própria. Não é como se pudesse contar com o amor ou a preocupação dos pais...
Adriana Castelli enrijeceu como se tivesse levado uma bofetada. Ao seu lado o marido realmente grunhiu e retornou o braço aos ombros dela num gesto protetor.
Estamos conseguindo alguma reação? Bom.
- Não faça suposições sobre minha família, delegado. Não estamos preocupados com Alice porque estamos convictos de que está bem. Asseguro-lhe que ela sabe se cuidar.
- Não faço suposições. Investigo. E não duvido que ela saiba se cuidar já que praticamente cresceu sozinha, abandonada aos cuidados de empregados. Empregados que mudavam constantemente.
- Não sabe do que está falando – exclamou a senhora Castelli, empalidecendo.
- Sei perfeitamente do que falo. Durante os últimos oito anos, estiveram constantemente fora do país. Na verdade só estiveram no Brasil apenas duas semanas por ano. A menina nunca viajou com vocês.
Carlos Castelli se levantou bruscamente.
- Saia de minha casa, delegado – exigiu em tom cortante. Depois, num tom mais gentil ordenou a esposa: - Vá para o quarto descansar, querida. Eu acompanho o delegado até a porta.
- Na verdade – explodiu Pedro -, me acompanhará até a delegacia. Sua adorável esposa também. Abandono e negligência infantil são crimes graves no Brasil. Aparentemente todos por aqui parecem acreditar que sua filha estava possuída pelo demônio... O que aconteceu? Um exorcismo que deu errado?
Adriana Castelli estava tão pálida que parecia a ponto de desmaiar. Isso não o preocupou o mínimo. Se havia algo que odiava era presenciar o abuso de pais contra os filhos. Filhos que deveriam ser protegidos como um tesouro. Deus sabia que, em sua profissão, Pedro já havia investigados crimes suficientes para ter pesadelos pelo resto da vida. Implacavelmente continuou:
- Ou talvez ela tivesse alguma necessidade especial? Um defeito físico que acreditou que envergonharia a família... Por isso a abandonaram? A isolaram? Ela não frequentou a escola; tinha aulas em casa.
- Basta! – Carlos berrou, tão pálido quanto a esposa. – Saia agora ou me assegurarei que nunca mais arranjará emprego nesta cidade ou em qualquer outra!
Sua expressão era implacável. Arrogante. Ele poderia realmente fazer isso, Pedro percebeu. Era rico o suficiente pra comprar qualquer coisa. Só que ele não era o tipo que podia ser comprado. A ameaça, em vez de assustá-lo, o estimulou.
- Acaba de me ocorrer que sua filha desapareceu no dia em que completou dezoito anos. O dia em que se tornou legalmente maior de idade, independente. Não poderia mais mantê-la presa... Assim sumiu com ela, verdade?
O milionário avançou contra o delegado, claramente decidido a arrastá-lo para fora por conta própria. Mas a esposa agarrou-se a ele, sussurrou um “não” angustiado e toda agressão foi drenada de seu corpo. Pedro observou o homem olhar para a esposa com uma adoração tão clara que seu coração saltou uma batida. Ele nunca olhou para uma mulher assim, como se o sol nascesse só por ela. Isso não... encaixava. Como alguém podia ser capaz de amar tanto, e não sentir nenhum amor pela própria filha? A menos que fosse obsessão. Ele não iria querer dividi-la então...
Carlos abraçou a esposa e dirigiu ao delegado um olhar duro, perigoso.
- Saia – repetiu. – Meu advogado entrará em contato com você brevemente. Não voltará a chegar perto de minha esposa sem uma ordem judicial. Nunca.
Pedro sorriu e friamente e replicou no mesmo tom:
- Eu estou a frente desta investigação e o aconselho a colaborar. Ou talvez devêssemos tornar público os depoimentos de seus empregados. Acredito que a mídia apreciaria principalmente o depoimento de sua governanta...
- O que quer dizer? – Carlos perguntou. E pela primeira vez havia insegurança em seu olhar.
- Ela parece acreditar que sua filha foi arrastada, magicamente, através do espelho em seu quarto... Na verdade, recordo que suas palavras exatas foram “Aquela garota estava possuída pelo demônio. Ele veio e a levou...”.
O milionário intensificou o aperto em volta da esposa, ocultando o rosto dela em seu peito.
- Se realmente tornar público tais absurdos, delegado – observou com um sorriso sem nenhum humor -, só conseguirá ridicularizar a si mesmo. A mulher está claramente perturbada. Providenciarei para que seja atendida o mais rápido possível por um especialista.
- Acredito que o fará. Terá que tratar todos os outros empregados também. Aparentemente a loucura é contagiosa. Mas assegure-se que ela não desapareça misteriosamente, porque não terei nenhum problema em investigar outro desaparecimento.
Carlos Castelli apenas o olhou, impassível. Em seus braços, sua esposa começou a tremer.
Pedro saiu pisando duro e quando chegou à porta ouviu uma maldição abafada. Deu uma olhada de relance e franziu o cenho. Adriana Castelli havia acabado de desmaiar.
Curioso. Aparentemente havia batido na tecla certa.

  

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