sábado, 23 de junho de 2012

A Mãe



 
Ela foi levada...

A frase passava e repassava pela mente de Adriana enquanto ela caminhava de um lado para o outro do quarto.

Ele veio e a levou...

Adriana Castelli apertou as mãos geladas enquanto a culpa a consumia. Sua filha desaparecida, levada... Sozinha. Ela deixou-se cair sobre a cama aliviada que o marido havia se ausentado um pouco. Mas voltaria logo. Estava louco de preocupação por ela.

Adriana tivera que ser muito firme pra evitar que Carlos a internasse imediatamente por causa do desmaio. Um ridículo e simples desmaio... Mas ele nunca se descuidava da saúde dela. Não podia sequer espirrar sem que uma equipe de médicos se materializasse subitamente à sua volta. Ela lutara contra esse exagero durante anos, mas nunca vencera a batalha. Nunca vencera nenhuma de suas batalhas contra a devoção dele por ela.

Por anos esperou que o amor dele desaparecesse; enfraquecesse como o de muitos casais. Que o fogo de sua paixão se extinguisse. Mas nunca ocorreu. Se algo mudou, então seu amor apenas tornou-se mais intenso. Sua paixão mais vívida.

E uma parte dela o odiava por isso. Por amar uma mulher que abandonou a própria filha. O odiava por ter compactuado com isso. Ela queria que ele tivesse escolhido Alice quando ela não teve forças pra fazê-lo.

Ela foi levada...

Mas Carlos não o faria. Sua felicidade era tudo pra ele.

Adriana deixou o olhar vagar pelo quarto numa apreciação crítica. Era elegante, luxuoso, mas nem de perto tão magnífico quanto os outros que possuía. Ela adorava viajar, então Carlos comprou várias casas ao redor do mundo. Uma propriedade na Toscana, Uma mansão em Aruba, um ensolarado rancho na Califórnia. Apartamentos em Paris, Budapeste, Londres. Uma fazenda na Austrália...

Alice nunca esteve em nenhum desses lugares. Carlos foi muito eficiente em mantê-la afastada de suas vidas e Adriana o odiava por isso tanto quanto odiava a si mesma. Odiava-se porque era feliz. Era imensamente feliz longe de sua filha.

Ele veio e a levou...

Atravessou o espelho...

Durante alguns anos ela moveu uma campanha silenciosa pra terminar seu casamento. Paquerou outros homens; empurrou mulheres pra cima do marido, foi fria... Ou pelo menos tentou. Seu corpo nunca pode resistir ao toque do marido e ela ainda o amava. Pertencia a ele de corpo e alma.

E Carlos sempre pareceu capaz de prevê suas intenções, seus movimentos, e desarmava cada um deles. Os homens que demonstravam interesse por ela desapareciam misteriosamente ou passavam a evitá-la como a peste. Ela nunca o surpreendeu com outra mulher e todas suas tentativas de manter-se afastada dele foram combatidas inflexivelmente. Quanto mais fria ela tentava ser, mais agressivo e apaixonado ele se tornava. Nunca lhe deu nenhuma chance de escapar. Depois, que argumento poderia apresentar a um juiz quando pedisse o divórcio? Quero me separar porque meu marido me adora e me faz extremamente feliz? 

Atravessou o espelho...

Adriana escondeu o rosto entre os travesseiros e gemeu de frustração.

Ele veio e a levou...

Sentou-se bruscamente quando uma certeza horrível a alcançou: Alice atravessou o espelho sozinha e quando Aquilo se inteirasse que não podia encontrá-la, viria por ela. E todos os que atravessassem seu caminho estariam mortos.

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