sábado, 19 de maio de 2012

O MOTORISTA


O gato estava deitado em frente a porta do quarto. Vigiando. Esperando. O velho sentiu o coração apertar no peito. Estava tão magro, o pelo perdendo o brilho. Seu João sabia que ele havia parado de comer e o compreendia. Desde que sua menina partiu - ele se recusava  a utilizar o termo sumiu – também havia perdido o apetite.
Com uma flexibilidade invejável em um homem de quase setenta anos, conseguida através de anos praticando ioga, agachou-se ao lado do gato e colocou em sua frente um prato com sua ração favorita.
- Precisa comer, pequeno. Nossa menina não vai gostar se o encontrar doente quando voltar.
Tapete escondeu o focinho entre as patas e ignorou ostensivamente o velho e a ração.
Seu João deixou escapar um suspiro tão forte que arrepiou o pelo do gato.
Que se dane, pensou.
- Se insiste em esperar por ela – disse -, vai estar mais confortável lá dentro.
E com um mínimo de hesitação abriu a porta.
Tapete espreguiçou-se longamente e com a tranquilidade de quem sabe que está em casa entrou no quarto e subiu imediatamente sobre a cama. Tomou seu tempo esfregando-se sobre a colcha até que se sentiu confortável, então se deitou em frente ao espelho.
O motorista sentou-se ao lado dele, colocando a ração ao seu lado.
- Come – ordenou ao gato. – Esperarei um pouco aqui, com você. Sabe que se a velha harpia nos pega esfolará a ambos.
Tapete desviou o olhar do espelho para pousá-lo sobre o velho e, em seguida, na porta. Deixou escapar um miado de dúvida.
O velho assentiu como se o entendesse.
- A velha harpia não está em casa. Podemos ficar aqui até que ela volte.
Pousou a mão enrugada sobre a cabeça do gato numa carícia e o felino ronronou em satisfação. Após outra olhada ao espelho, começou a comer.
Seu João olhou ao quarto vazio refletido no espelho e seu coração contraiu de tristeza. Havia estado tantas vezes ali, enquanto a menina crescia, e sabia que era impróprio e teria sido demitido imediatamente caso alguém descobrisse, mas a pequena estava sempre tão sozinha...
Amava-a como uma filha e havia cuidado dela como tal, apesar de todas as coisas estranhas sobre ela. A velha harpia acreditava que sua Alice havia atravessado o espelho e seu João não duvidava. Se alguém podia fazer isso seria sua menina.
Tapete abandonou a ração e acomodou-se em seu colo pedindo mais carícias.
Ficaram um longo tempo em silêncio, o velho e o gato, em frente ao espelho. Esperando...

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