quinta-feira, 31 de maio de 2012

OS PAIS

O delegado Pedro Malta estava tentando, duramente, não babar. Como uma mulher podia ser tão condenadamente bonita?
- Então delegado. O que o faz pensar que nossa filha foi sequestrada?
Pedro lançou ao homem alto um olhar confuso. Quase perguntou “que sequestro?” quando o profissional dentro de si assumiu o controle e lhe deu uma sacudida. Concentre-se, imbecil!
Ah, sim. Os pais da garota. Pedro finalmente havia conseguido contatá-los e trazê-los ao Brasil. Assim que soube que estavam em casa apresentou-se com uma rapidez próxima a inconveniência, agitado demais pra esperar. E então a mulher mais bonita que já vira na vida apareceu e seu cérebro definitivamente saiu para umas pequenas férias.
Adriana Castelli era alta, deliciosamente proporcionada e nem de longe aparentava ter idade pra ser mãe de uma garota de dezoito anos. Mas era seu rosto, mais que o curvilíneo corpo, que chamava sua atenção. Traços perfeitos, olhos de um azul profundo e um cabelo negro e bem tratado que descia em sedosas ondas até o peito. De fato um cacho insistia em desaparecer teimosamente no decote e Pedro estava em vias de sentar-se sobre as mãos para conter a tentação de estender o braço e tocar aquela joia negra.
O marido dificilmente ficaria feliz se notasse o efeito que sua esposa produzia nele.
- Delegado... – o tom seco e impaciente do homem voltou a chamar sua atenção.
Pedro desviou o olhar da senhora Castelli com um esforço digno de aplauso e percebeu que o homem estava com os olhos estreitados sobre ele. Olhos que brilhavam com pura fúria. Ah, sim... Ele tinha percebido.
Em um gesto lento e deliberado Carlos Castelli estendeu o braço e afastou delicadamente o cabelo da esposa para os ombros. Depois deixou a mão descansando no pescoço dela num gesto inequívoco de posse. Um aviso de que não era um marido complacente.
Mas também um sinal claro de que não era um pai preocupado. Um homem que estava tranquilo demais para alguém que soube, com seis dias de atraso, que a filha estava desaparecida. O delegado dentro dele acordou, subitamente alerta, e Pedro endireitou o corpo numa postura agressiva. Estava na hora de trabalhar.

"Eu o odeio tanto! Ele destruiu minha infância, minha vida... Mas meu corpo sente que está em casa quando está perto do dele, e depois não entende porque tem de ir embora. Só por isso vou matá-lo, maldito filho de uma..." - Alice Castelli, a Possuída, ou - segundo sua própria definição - a Garota Mais Azarada do Planeta.

"Odeie-me o quanto quiser. Eu forcei as portas do Abismo para alcançá-la e serei condenado se a perder novamente!" - Raziel dos Antigos. O Monstro Que Monstros Temem.

sábado, 19 de maio de 2012

O MOTORISTA


O gato estava deitado em frente a porta do quarto. Vigiando. Esperando. O velho sentiu o coração apertar no peito. Estava tão magro, o pelo perdendo o brilho. Seu João sabia que ele havia parado de comer e o compreendia. Desde que sua menina partiu - ele se recusava  a utilizar o termo sumiu – também havia perdido o apetite.
Com uma flexibilidade invejável em um homem de quase setenta anos, conseguida através de anos praticando ioga, agachou-se ao lado do gato e colocou em sua frente um prato com sua ração favorita.
- Precisa comer, pequeno. Nossa menina não vai gostar se o encontrar doente quando voltar.
Tapete escondeu o focinho entre as patas e ignorou ostensivamente o velho e a ração.
Seu João deixou escapar um suspiro tão forte que arrepiou o pelo do gato.
Que se dane, pensou.
- Se insiste em esperar por ela – disse -, vai estar mais confortável lá dentro.
E com um mínimo de hesitação abriu a porta.
Tapete espreguiçou-se longamente e com a tranquilidade de quem sabe que está em casa entrou no quarto e subiu imediatamente sobre a cama. Tomou seu tempo esfregando-se sobre a colcha até que se sentiu confortável, então se deitou em frente ao espelho.
O motorista sentou-se ao lado dele, colocando a ração ao seu lado.
- Come – ordenou ao gato. – Esperarei um pouco aqui, com você. Sabe que se a velha harpia nos pega esfolará a ambos.
Tapete desviou o olhar do espelho para pousá-lo sobre o velho e, em seguida, na porta. Deixou escapar um miado de dúvida.
O velho assentiu como se o entendesse.
- A velha harpia não está em casa. Podemos ficar aqui até que ela volte.
Pousou a mão enrugada sobre a cabeça do gato numa carícia e o felino ronronou em satisfação. Após outra olhada ao espelho, começou a comer.
Seu João olhou ao quarto vazio refletido no espelho e seu coração contraiu de tristeza. Havia estado tantas vezes ali, enquanto a menina crescia, e sabia que era impróprio e teria sido demitido imediatamente caso alguém descobrisse, mas a pequena estava sempre tão sozinha...
Amava-a como uma filha e havia cuidado dela como tal, apesar de todas as coisas estranhas sobre ela. A velha harpia acreditava que sua Alice havia atravessado o espelho e seu João não duvidava. Se alguém podia fazer isso seria sua menina.
Tapete abandonou a ração e acomodou-se em seu colo pedindo mais carícias.
Ficaram um longo tempo em silêncio, o velho e o gato, em frente ao espelho. Esperando...