sábado, 12 de novembro de 2011

O Espelho


O quarto estava frio e silencioso. Lembrava uma tumba. Dona Antônia estremeceu involuntariamente com esse pensamento. O enorme espelho na parede do quarto amplificava a imagem desolada, vazia, e devolvia-lhe o reflexo sem muita condescendência. O cabelo castanho e sem brilho, permanentemente preso. O pesado uniforme preto, de corte reto e um pouco grande demais pra ela. Estatura mediana, um rosto comum e uma boca rígida que raramente sorria. O oposto das mulheres daquela casa: a mãe fútil, egoísta e linda; a filha exuberante e estranha. Ambas extremamente femininas.
Dona Antônia odiava tudo o que fosse feminino. A feminilidade era um pecado. Uma ofensa. Seu pai ensinara-lhe isso. Ela afastou-se do espelho e deitou-se na cama, tomando o cuidado de deixar os sapatos fora dos lençóis imaculados. Deixou-se envolver pelo silêncio, o vazio. Ficou assim pelo que poderia ser minutos ou horas. Ela não se importava. Vindo de algum lugar uma brisa soprou, trazendo um leve odor de lagos e florestas.
Ela se levantou olhando confusa para a janela, verificando que estava fechada. E a temperatura no quarto parecia vários graus mais baixa. Um longo arrepio lhe percorreu a espinha, mas o ignorou. Aquilo não significava nada. Alisou o uniforme com um gesto pronto e marchou para a porta abrindo-a com brutalidade. Atrás dela outra brisa soprou; o cheiro de água, barro e grama inundando o quarto. Ela voltou-se irresistivelmente atraída pelo espelho. Sua superfície estava se fragmentando em inúmeras fraturas. Não. Não eram fraturas, ela percebeu. Gelo. Uma fina e quebradiça capa de gelo que se expandia velozmente por toda a superfície.
D. Antônia levou a mão ao peito como se pra conter o apressado batimento de seu coração. Diante dela o espelho mudava novamente, absorvendo o gelo, tornando-se cada vez mais límpido e transparente, até que uma leve névoa foi soprada através dele. Diante de seus olhos abertos de espanto, a margem de um lago cercado por uma densa floresta surgiu como de uma tela de cinema. A diferença era que ela podia cheirar; sentir a brisa no rosto. Que Deus a ajudasse, sentia que se estendesse a mão poderia tocar.
Às margens desse lago uma garota ajoelhada ergueu os olhos para ela, plenos de assombro. Alice. Aquela odiada garota olhava para ela através do espelho e erguia uma mão esperançosa, como se pretendesse tocá-la.
A governanta afastou-se com puro horror. A garota agora estreitava os olhos azuis enquanto a media de cima abaixo, o rosto desolado, e pronunciava algo que dona Antônia não pode ouvir, mas cujos movimentos dos lábios assemelharam-se suspeitamente a “ninguém merece”.
Ninguém merece!
A indignação substituiu o horror. Aquela menina amaldiçoada havia sido arrastada para o Inferno e ainda se achava superior a ela? Quando a única pessoa que sabia onde ela estava presa era ela, Antônia. Quando podia ser a única capaz de salvá-la? O ódio correu por suas veias, quente e impiedoso. Que ela apodrecesse no Inferno...
Do outro lado do espelho Alice se levantou totalmente alerta, olhando à sua volta e algo prateado brilhou em sua mão. Antes que dona Antônia pudesse entender o que era, o espelho cobriu-se de névoa e gelo, toda imagem desaparecida, até reassumir sua forma original, límpida e espelhada. No espaço de poucos batimentos cardíacos, ela estava de volta ao quarto comum e vazio. No espelho, apenas sua imagem refletida e, mais ao fundo, a porta entreaberta onde um gato negro bufava e cuspia; as costas arqueadas, orelhas baixas e pêlo arrepiado agressivamente.