segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Carro


O espelho, previsivelmente, não o engoliu. Pedro Nada-a-Perder abandonou o quarto de Alice ainda mais irritado do que quando entrou. Ao passar por uma das múltiplas janelas do primeiro andar, viu de relance o motorista polindo o carro.
O homem, um senhor de mais de sessenta anos, era teimoso como uma mula e silencioso como uma porta. O delegado usara todas as suas técnicas de interrogatório e algumas ameaças escusas, sem obter qualquer resultado.
Ele recusara-se a falar sobre a garota ou sequer aceitar a idéia de seu desaparecimento, e a qualquer abordagem sua limitara-se a repetir monotonamente que "sua menina fora apenas dar uma volta e logo voltaria para pegar o carro".
O carro em questão havia sido enviado por seus pais como presente de dezoito anos. Se era verdade que pais ausentes - ao menos pais ausentes asquerosamente ricos - costumavam compensar a falta de atenção com presentes caros, então os pais de Alice estavam compensando muito.
A belezinha amarela lá em baixo era o clássico Camaro que a Chevrolet lançou no Brasil; o carro que os nerds (não que ele fosse um) conheciam como o Bumblebee de "Transformers". Qualquer adolescente rasgaria seu caminho através do inferno pra colocar as mãos nesse carro. Maldição! Ele rasgaria um caminho através do inferno pra colocar as mãos nesse carro!
E o velho estava acima de qualquer suspeita. Todos na mansão foram unânimes em afirmar que a lealdade dele à garota era canina. Na verdade, o termo enfeitiçado foi usado frequentemente, acompanhado de grandes sinais da cruz.

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