segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A Governanta


Ela estava em frente à porta do maldito quarto. De novo.
D. Antônia fechou os punhos apertados e recuou, decidida a não entrar. Não ceder a esse mórbido fascínio que mais e mais a subjugava.
Obrigou-se a refazer seus passos de volta à sala de estar e passou uma mão descuidada sobre o sofá aveludado. Um pouco adiante uma felpuda almofada negra abriu os olhos dourados e pousou um olhar maléfico sobre ela. A governanta quase rosnou agressivamente em resposta.
A almofada em questão era Tapete, o gato da garota. Em segredo, dona Antônia o chamava de Lúcifer. O nome lhe parecia mais apropriado. Ela e o gato partilhavam um caso mútuo de ódio à primeira vista e só o receio de perder o emprego, assim como um resquício de humanidade, impedia que sumisse com ele. A garota era louca pelo asqueroso bicho e, verdade seja dita, o infeliz a amava. Desde seu desaparecimento o gato mal comia e só abandonava sua apatia pra fazer de sua vida um inferno. Neste momento, sem desviar o olhar dela, estava se espreguiçando por todo sofá, enchendo a superfície aveludada de pêlo.
Dona Antônia amaldiçoou baixinho.
Tapete ronronou de pura satisfação e espreguiçou-se novamente, seu olhar maliciosamente fixo no dela.
- Aproveite enquanto pode, Lúcifer – ela ameaçou através de dentes cerrados -, sua dona não está aqui pra te proteger.
Os dourados olhos do gato se estreitaram em ameaça.
Ela avançou um passo.
Ele arrepiou o pêlo e desencapou as garras.
Olharam-se fixamente por um instante, medindo forças, e então a governanta se afastou com um gemido de frustração. Um dia darei um jeito em você, bicho maldito!
Subiu a escada novamente, suas emoções turbulentas, e mais uma vez parou em frente à porta do quarto de Alice. O fascínio era muito grande pra que pudesse lutar contra ele. Admitindo a derrota, sua mão alcançou a maçaneta e abriu.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Carro


O espelho, previsivelmente, não o engoliu. Pedro Nada-a-Perder abandonou o quarto de Alice ainda mais irritado do que quando entrou. Ao passar por uma das múltiplas janelas do primeiro andar, viu de relance o motorista polindo o carro.
O homem, um senhor de mais de sessenta anos, era teimoso como uma mula e silencioso como uma porta. O delegado usara todas as suas técnicas de interrogatório e algumas ameaças escusas, sem obter qualquer resultado.
Ele recusara-se a falar sobre a garota ou sequer aceitar a idéia de seu desaparecimento, e a qualquer abordagem sua limitara-se a repetir monotonamente que "sua menina fora apenas dar uma volta e logo voltaria para pegar o carro".
O carro em questão havia sido enviado por seus pais como presente de dezoito anos. Se era verdade que pais ausentes - ao menos pais ausentes asquerosamente ricos - costumavam compensar a falta de atenção com presentes caros, então os pais de Alice estavam compensando muito.
A belezinha amarela lá em baixo era o clássico Camaro que a Chevrolet lançou no Brasil; o carro que os nerds (não que ele fosse um) conheciam como o Bumblebee de "Transformers". Qualquer adolescente rasgaria seu caminho através do inferno pra colocar as mãos nesse carro. Maldição! Ele rasgaria um caminho através do inferno pra colocar as mãos nesse carro!
E o velho estava acima de qualquer suspeita. Todos na mansão foram unânimes em afirmar que a lealdade dele à garota era canina. Na verdade, o termo enfeitiçado foi usado frequentemente, acompanhado de grandes sinais da cruz.