quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O quarto

O quarto era extraordinariamente simples para uma adolescente. Um espelho ocupava toda uma parede. Além disso, havia apenas uma cama king size ao centro e uma mesinha para o computador. Uma série de quadros de Romero Britto na cabeceira da cama era o único toque alegre.
O delegado aproximou-se do espelho e investigou a moldura a procura de qualquer coisa que indicasse uma passagem secreta. Ridículo! Como imaginava, o espelho era apenas um espelho. Não era de espantar que dois de seus colegas houvessem passado o caso para ele! Tudo naquela história cheirava mal. Desde a governanta, completamente louca, aos pais irresponsáveis que estavam incomunicáveis em alguma parte da Europa. Há dois dias sua equipe tentava entrar em contato com eles, sem sucesso. A garota estava desaparecida a quatro.
Ele já interrogara todos os funcionários e vira os arquivos do computador dela. Mas além de inúmeros acessos a canais do tempo, não havia nada. Ela não possuía orkut, facebook ou twitter e seu email não era acessado há meses. O delegado simplesmente não entendia. Afinal, que tipo de adolescente não possuía um perfil virtual? Era como se a garota virtualmente não existisse.
Pedro Nada-a-Perder odiava enigmas. Mas começava a odiar mais ainda a governanta que o observava, parada à porta do quarto, como se esperasse que a qualquer momento fosse descobrir um cofre e assaltar as jóias da família. Por pura maldade deixou escapar um palavrão impróprio para casas de família, na esperança de que a mulher se sentisse ofendida e o deixasse só. Foi uma grosseira inútil. Ela sequer piscou.
Mas pareceu decidir que suficiente era suficiente e perguntou:
- Já terminou? Porque preciso limpar o quarto.
Ele não se importava nem um pouco se o quarto seria limpo ou não. Sua equipe já estivera lá buscando impressões digitais e encontraram apenas as da vítima. Ainda assim, não queria ninguém interferindo no que poderia ser sua cena do crime.
- E então? – ela insistiu. - Preciso limpar o quarto e tenho outras coisas a fazer, delegado. Não interfiro em seu trabalho. Gostaria que não interferisse no meu.
Pedro deu-lhe um olhar descrente.
- É seu trabalho limpar o quarto? Não creio...
Ela comprimiu os lábios com raiva.
- Nenhum outro funcionário aceitará entrar aqui. Eles estão com muito medo desde que o espelho...
- Pode parar! – o delegado praticamente rosnou. – Se voltar a repetir que a garota atravessou o espelho ou outra estupidez semelhante, ficarei realmente irritado! E acredite... Não me quer irritado.
Teve a impressão de ouvi-la ranger os dentes e isso lhe deu uma satisfação perversa. Mas sua satisfação diminuiu quando a mulher abriu um sorriso claramente maldoso e assentiu.
- Muito bem – ela disse, lançando um olhar precavido ao espelho. – Mas eu não ficaria muito tempo próximo a essa coisa se fosse você...
Com esse alerta o abandonou.
E Pedro podia jurar que ela estava torcendo para que o espelho o engolisse.

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