sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O Portal do Infinito

Alice Castelli entrou três vezes na fila do azar.
Seus pais não a amam. Ela possui dons inexplicáveis, de modo que quase todo mundo que a conhece acredita que está possuída pelo demônio e está conectada desde criança a mente de um assassino.
A boa notícia: ela não está possuída pelo demônio.
A má: existe um demônio, está obcecado por ela e há muito tempo tenta levá-la à sua dimensão. Finalmente ele conseguiu.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O quarto

O quarto era extraordinariamente simples para uma adolescente. Um espelho ocupava toda uma parede. Além disso, havia apenas uma cama king size ao centro e uma mesinha para o computador. Uma série de quadros de Romero Britto na cabeceira da cama era o único toque alegre.
O delegado aproximou-se do espelho e investigou a moldura a procura de qualquer coisa que indicasse uma passagem secreta. Ridículo! Como imaginava, o espelho era apenas um espelho. Não era de espantar que dois de seus colegas houvessem passado o caso para ele! Tudo naquela história cheirava mal. Desde a governanta, completamente louca, aos pais irresponsáveis que estavam incomunicáveis em alguma parte da Europa. Há dois dias sua equipe tentava entrar em contato com eles, sem sucesso. A garota estava desaparecida a quatro.
Ele já interrogara todos os funcionários e vira os arquivos do computador dela. Mas além de inúmeros acessos a canais do tempo, não havia nada. Ela não possuía orkut, facebook ou twitter e seu email não era acessado há meses. O delegado simplesmente não entendia. Afinal, que tipo de adolescente não possuía um perfil virtual? Era como se a garota virtualmente não existisse.
Pedro Nada-a-Perder odiava enigmas. Mas começava a odiar mais ainda a governanta que o observava, parada à porta do quarto, como se esperasse que a qualquer momento fosse descobrir um cofre e assaltar as jóias da família. Por pura maldade deixou escapar um palavrão impróprio para casas de família, na esperança de que a mulher se sentisse ofendida e o deixasse só. Foi uma grosseira inútil. Ela sequer piscou.
Mas pareceu decidir que suficiente era suficiente e perguntou:
- Já terminou? Porque preciso limpar o quarto.
Ele não se importava nem um pouco se o quarto seria limpo ou não. Sua equipe já estivera lá buscando impressões digitais e encontraram apenas as da vítima. Ainda assim, não queria ninguém interferindo no que poderia ser sua cena do crime.
- E então? – ela insistiu. - Preciso limpar o quarto e tenho outras coisas a fazer, delegado. Não interfiro em seu trabalho. Gostaria que não interferisse no meu.
Pedro deu-lhe um olhar descrente.
- É seu trabalho limpar o quarto? Não creio...
Ela comprimiu os lábios com raiva.
- Nenhum outro funcionário aceitará entrar aqui. Eles estão com muito medo desde que o espelho...
- Pode parar! – o delegado praticamente rosnou. – Se voltar a repetir que a garota atravessou o espelho ou outra estupidez semelhante, ficarei realmente irritado! E acredite... Não me quer irritado.
Teve a impressão de ouvi-la ranger os dentes e isso lhe deu uma satisfação perversa. Mas sua satisfação diminuiu quando a mulher abriu um sorriso claramente maldoso e assentiu.
- Muito bem – ela disse, lançando um olhar precavido ao espelho. – Mas eu não ficaria muito tempo próximo a essa coisa se fosse você...
Com esse alerta o abandonou.
E Pedro podia jurar que ela estava torcendo para que o espelho o engolisse.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

11 de setembro de 2011

- Apenas pra confirmar... O nome da vítima é Alice?
- Sim.
- E a senhora está me dizendo que ela atravessou um espelho.
- Eu sei o que vi – a mulher ergueu o queixo com arrogância. – Ela é capaz de tudo... Aquela menina estranha...
O delegado Pedro Malta, também conhecido como Pedro Nada-a-Perder, lançou a governanta um olhar sombrio e se perguntou quanto tempo de cadeia um delegado pegaria por estrangular uma testemunha. Decidiu que não valia à pena e partiu pra intimidação.
- Está consciente que posso processá-la por obstrução da justiça? Ou desperdiçar o tempo da polícia? Sem contar que sua falta de colaboração pode indicar participação no seqüestro...
- Ah, por favor! – zombou a governanta, nem um pouco intimidada. – Não há seqüestro. Ela atravessou o espelho, estou dizendo...
Acendeu um cigarro com a mão trêmula, mais de fúria que de ansiedade, e continuou:
- Não vou mais guardar os segredos dessa família.
- Dona Antônia...
Ela o interrompeu com um gesto de impaciência.
- Já basta! Não vou repetir tudo de novo... O salário não é assim tão bom para que eu aguente toda essa merda...
Olhou em volta como se temesse ser ouvida e confidenciou:
- Aquela garota estava possuída pelo demônio. Ele veio e a levou...