O Portal do Infinito
Nome:Alice Castelli. Idade: 18 anos. Situação: Desaparecida. A polícia suspeita de sequestro.
sábado, 19 de maio de 2012
O MOTORISTA
sábado, 12 de novembro de 2011
O Espelho
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
A Governanta
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
O Carro

O espelho, previsivelmente, não o engoliu. Pedro Nada-a-Perder abandonou o quarto de Alice ainda mais irritado do que quando entrou. Ao passar por uma das múltiplas janelas do primeiro andar, viu de relance o motorista polindo o carro.
O homem, um senhor de mais de sessenta anos, era teimoso como uma mula e silencioso como uma porta. O delegado usara todas as suas técnicas de interrogatório e algumas ameaças escusas, sem obter qualquer resultado.
Ele recusara-se a falar sobre a garota ou sequer aceitar a idéia de seu desaparecimento, e a qualquer abordagem sua limitara-se a repetir monotonamente que "sua menina fora apenas dar uma volta e logo voltaria para pegar o carro".
O carro em questão havia sido enviado por seus pais como presente de dezoito anos. Se era verdade que pais ausentes - ao menos pais ausentes asquerosamente ricos - costumavam compensar a falta de atenção com presentes caros, então os pais de Alice estavam compensando muito.
A belezinha amarela lá em baixo era o clássico Camaro que a Chevrolet lançou no Brasil; o carro que os nerds (não que ele fosse um) conheciam como o Bumblebee de "Transformers". Qualquer adolescente rasgaria seu caminho através do inferno pra colocar as mãos nesse carro. Maldição! Ele rasgaria um caminho através do inferno pra colocar as mãos nesse carro!
E o velho estava acima de qualquer suspeita. Todos na mansão foram unânimes em afirmar que a lealdade dele à garota era canina. Na verdade, o termo enfeitiçado foi usado frequentemente, acompanhado de grandes sinais da cruz.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
O Portal do Infinito
Alice Castelli entrou três vezes na fila do azar.
Seus pais não a amam. Ela possui dons inexplicáveis, de modo que quase todo mundo que a conhece acredita que está possuída pelo demônio e está conectada desde criança a mente de um assassino.
A boa notícia: ela não está possuída pelo demônio.
A má: existe um demônio, está obcecado por ela e há muito tempo tenta levá-la à sua dimensão. Finalmente ele conseguiu.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
O quarto
O quarto era extraordinariamente simples para uma adolescente. Um espelho ocupava toda uma parede. Além disso, havia apenas uma cama king size ao centro e uma mesinha para o computador. Uma série de quadros de Romero Britto na cabeceira da cama era o único toque alegre.
O delegado aproximou-se do espelho e investigou a moldura a procura de qualquer coisa que indicasse uma passagem secreta. Ridículo! Como imaginava, o espelho era apenas um espelho. Não era de espantar que dois de seus colegas houvessem passado o caso para ele! Tudo naquela história cheirava mal. Desde a governanta, completamente louca, aos pais irresponsáveis que estavam incomunicáveis em alguma parte da Europa. Há dois dias sua equipe tentava entrar em contato com eles, sem sucesso. A garota estava desaparecida a quatro.
Ele já interrogara todos os funcionários e vira os arquivos do computador dela. Mas além de inúmeros acessos a canais do tempo, não havia nada. Ela não possuía orkut, facebook ou twitter e seu email não era acessado há meses. O delegado simplesmente não entendia. Afinal, que tipo de adolescente não possuía um perfil virtual? Era como se a garota virtualmente não existisse.
Pedro Nada-a-Perder odiava enigmas. Mas começava a odiar mais ainda a governanta que o observava, parada à porta do quarto, como se esperasse que a qualquer momento fosse descobrir um cofre e assaltar as jóias da família. Por pura maldade deixou escapar um palavrão impróprio para casas de família, na esperança de que a mulher se sentisse ofendida e o deixasse só. Foi uma grosseira inútil. Ela sequer piscou.
Mas pareceu decidir que suficiente era suficiente e perguntou:
- Já terminou? Porque preciso limpar o quarto.
Ele não se importava nem um pouco se o quarto seria limpo ou não. Sua equipe já estivera lá buscando impressões digitais e encontraram apenas as da vítima. Ainda assim, não queria ninguém interferindo no que poderia ser sua cena do crime.
- E então? – ela insistiu. - Preciso limpar o quarto e tenho outras coisas a fazer, delegado. Não interfiro em seu trabalho. Gostaria que não interferisse no meu.
Pedro deu-lhe um olhar descrente.
- É seu trabalho limpar o quarto? Não creio...
Ela comprimiu os lábios com raiva.
- Nenhum outro funcionário aceitará entrar aqui. Eles estão com muito medo desde que o espelho...
- Pode parar! – o delegado praticamente rosnou. – Se voltar a repetir que a garota atravessou o espelho ou outra estupidez semelhante, ficarei realmente irritado! E acredite... Não me quer irritado.
Teve a impressão de ouvi-la ranger os dentes e isso lhe deu uma satisfação perversa. Mas sua satisfação diminuiu quando a mulher abriu um sorriso claramente maldoso e assentiu.
- Muito bem – ela disse, lançando um olhar precavido ao espelho. – Mas eu não ficaria muito tempo próximo a essa coisa se fosse você...
Com esse alerta o abandonou.
E Pedro podia jurar que ela estava torcendo para que o espelho o engolisse.