segunda-feira, 19 de agosto de 2013


Então... Você espera anos pra por as mãos em um Camaro, e quando finalmente consegue, dois caipiras cantam uma música ridícula e estragam tudo!

Bianca Fernandes, conhecida como Independência ou Morte e melhor amiga de Alice.

Cara, eu bebi caipirinha no Cálice Sagrado!

Alice Castelli, a Possuída.

Escuridão - parte II


Sobre suas cabeças uma tardia lua cheia ascendia lançando um fraco brilho prateado sobre o lago. Com um suspiro Alice envolveu-se no cobertor e esperou. Não muito depois uma onda de mal estar chegou a ela. Uma sombra alongada e distorcida passou entre as árvores, seguida de outra, e outra. Ocasionalmente um raio de lua tocava uma pele cinza, revelava um rosto deformado, animalesco. Medo era agora uma entidade viva apertando o coração dela. Sua mão fechando ansiosamente sobre o cabo da faca. Faca? Que diabos...

Com uma praga sussurrada Alice percebeu que, enquanto estava focada nas coisas mortas no bosque, havia inconscientemente agarrado uma das facas em sua mochila. Como se pretendesse lutar com aquelas coisas? Por favor... Não. Ia. Acontecer.

Você não assiste a tantas temporadas de The Walking Dead pra não aprender que a melhor técnica pra não ser devorada por um morto vivo é não ser vista por ele.


Forçando-se a largar a faca, obrigou-se a ficar absolutamente imóvel. Por fim todo o movimento cessou no bosque. O silêncio tornou-se de alguma forma menos denso, mais natural. Ela deitou-se de costas, seu olhar vagando distraído pelo céu escuro. Nuvens esparsas escondiam ou revelavam a lua alternadamente. Perguntou-se o que Bianca estaria fazendo. Provavelmente xingando-a de filha da puta... Um sorriso espontâneo surgiu com esse pensamento. Alice abafou um bocejo decidida a ficar acordada até o amanhecer.

Duas coisas a fizeram entender que seu maravilhoso plano de permanecer acordada havia falhado.

Primeiro: o céu repentinamente apresentava o tom verde e róseo do amanhecer.

Segundo: agachado sobre a pedra, as palmas das mãos entre as botas na posição de uma gárgula saída de um pesadelo, asas negras tocando a água, o Servo olhava para ela com foco total.

Definição da situação? Totalmente ferrada.

domingo, 18 de agosto de 2013

Escuridão - parte I


O peso da mochila acrescido ao da criança deveria ser muito pra ela, mas Alice estava usando suas enferrujadas habilidades telecinéticas, e embora sem prática aquilo usava apenas uma fração mínima do seu poder. A disciplina exigida pra manter seus escudos erguidos enquanto sondava o entorno por ameaças cobrava muito mais. Durante toda sua vida, só usara seus poderes perto de Bianca. Agora percebia o quanto isso a havia limitado.

E por falar nisso, Bianca devia estar enlouquecendo nesse exato minuto.

Aguenta Bi... Volto pra casa assim que puder.

Vinte minutos depois avistou o que parecia ser uma caverna e apressou o passo em direção contrária. Pelo que lembrava de seus pesadelos, coisas piores que morcegos se esconderiam lá. Expandiu seus sentidos mais longe e quase gemeu de alívio quando pressentiu água. O bosque estava escurecendo vertiginosamente rápido e era questão de tempo até que Morte rastejasse pelo lugar. Os pássaros já haviam silenciado, sabiamente tornando-se invisíveis.

Quando finamente o lago surgiu à sua frente suor frio escorria por suas costas, menos pelo esforço do que pelo medo que aquele silêncio opressivo lhe causava.

Ela sondou a vastidão escura à sua frente. No alto o céu agonizava; o púrpura sangrento devorado rapidamente pela escuridão. Um último raio de sol tocou a superfície de uma larga pedra cravada como iceberg quase no centro do lago.

Alice inclinou um pouco a cabeça tentando decidir como chegar lá. Moisés abrindo o mar vermelho ou Jesus caminhando sobre as águas. Uma rápida sondada psíquica no lago lhe disse que este era muito mais profundo que imaginara. Com um dar de ombros ela começou a caminhar até a pedra. Suas botas tocando a superfície da água como faria no asfalto.

Por ter realizado essa façanha na piscina quando era criança, todos os empregados fugiram da casa gritando “bruxa”. Que nenhum tenha voltado para receber o pagamento devido mostrou o quão aterrorizados eles ficaram. Naquele dia seu pai mandou drenar a piscina apenas para encontrá-la cheia no dia seguinte. E isso aconteceu novamente e novamente, até que seu olhar fechou-se sobre o rosto dela com resignação.

“Bem – havia murmurado -, suponho que é preferível a água que o fogo”.

Sua afinidade com a água era apenas... Tudo.

Durante muito tempo, ela e Bianca se convenceram de que era uma sereia e Alice passou um longo tempo dentro da piscina esperando – e temendo – que uma cauda aparecesse. Quando isso não ocorreu, empreenderam uma fuga para a praia. A cauda nunca apareceu e em conseqüência de sua aventura, ficou um mês de castigo, trancada no quarto. Mas seu poder sobre este elemento foi o único dom que nunca renegou.

Finalmente alcançou a pedra e ficou aliviada ao notar que a superfície emersa era quase plana e maior do que imaginara. Com cuidado deitou a criança adormecida na pedra após envolvê-la num dos grossos cobertores de lã, deixando o outro de lado. Sua jaqueta de couro sintético a mantinha quente o suficiente. Em seguida alcançou o pão e algumas frutas e comeu rapidamente enquanto jogava um olhar de culpa sobre a criança.

- Acredite em mim pequena... Melhor dormir até amanhã.

Com um suspiro deitou-se de bruços sobre o outro cobertor e preparou-se para vigília. Havia pegado emprestadas várias facas, das casas que abordara. Mas contra as ameaças que temia nesta noite manchada de sangue, apenas a água a protegeria.

Por do sol - parte II


Ela olhou novamente para a criança, hesitante em deixá-la sozinha, mas a praticidade venceu. O portal que a trouxe até este mundo estava fechado, assim não podia voltar. Ainda não. E que não estivesse enlouquecida com isso mostrava o quanto estava danificada.

Por que... Não importa o quanto surreal fosse a situação, no momento em que atravessara o espelho sua alma sussurrara Lar. E a cada segundo que passava crescia nela a sensação de que este mundo, que vira em seus pesadelos desde sua infância, era mais real do que tudo o que havia vivido. O que significava que não tinha muito tempo.

Correndo rapidamente até a vila ela evitou ao máximo olhar para o sangue e a morte, sabiamente adotando o “longe dos olhos, longe do coração” e invadiu sem pudor as casas destruídas. Em uma conseguiu uma mochila num material semelhante à lona e cobertores, em outra uma refeição havia queimado em um rústico fogão, mas havia pão e frutas sobre a mesa. Ela entrou em casa após casa, roubando sem pudor o que precisava, ignorando sua consciência que apontava o erro disso.  Afinal, uma garota tinha que viver, certo? Sofia Coppola aprovaria totalmente essa filosofia. Não era como se estivesse assaltando o closet da Paris Hilton. Espera! Apague isso. Sofia aprovaria totalmente que assaltasse o closet da Paris, e havia Bling Ring para provar essa afirmação.

Quando por fim voltou pela menina, uma olhada no céu lhe disse que possuía pouco mais de uma hora. Prendendo a mochila nas costas, elevou o corpo da criança nos braços e caminhou em direção aos bosques adiante.

sábado, 17 de agosto de 2013

Pôr do sol - parte I


Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura
para se construir um destino.
Marguerite Yourcenar


Você sabe que sua mente está bem fodida quando atravessa um espelho e não aparece ninguém para colocá-la em uma camisa de força. Porque – vamos combinar – isso está além do anormal. Não que “normal” algum dia pudesse ser aplicado a ela.

Alice virou esperando ver seu quarto novamente, uma chance de voltar, mas seu olhar encontrou apenas sangue e morte. Escombros manchados onde antes havia uma pacífica vila. A visão dessa destruição deveria ter embrulhado seu estômago. Não aconteceu; ela vira cenas como essa – piores que essa - centenas de vezes em seus pesadelos. Sua mente estava anestesiada para tal violência; para o horror daquilo.

Um gemido baixo e seu olhar foi puxado de volta para a criança, a razão pela qual transformara seus pesadelos em realidade. Ela se aproximou evitando cuidadosamente olhar para o corpo quebrado da velha e agachou-se ao lado da menina.

Um pequeno tremular de cílios e olhos surpreendentemente iguais aos seus a encontraram por um segundo. A menina piscou tentando acordar.

Péssima idéia.

- Durma anjo – murmurou induzindo a criança a inconsciência.

Agora uma onda de enjôo embrulhou seu estômago. Um reflexo condicionado de suas tentativas em esconder suas habilidades. Monstro, bruxa, demônio! Tantas vezes fora chamada por essas palavras que aparentar ser normal tornou-se imperativo. Mesmo aqui, neste mundo de loucura e pesadelo, ela não pode evitar olhar em volta, com medo de ser surpreendida fazendo algo anormal.

No horizonte o céu começava a se manchar de matizes avermelhados. Algo profundamente enterrado em sua mente clicou em revelação: menos de duas horas para o por do sol.
Seu olhar voltou a pousar sobre o sangue derramado, os corpos quebrados, atrativo absoluto para predadores. Aqui, em seu mundo de pesadelo, coisas se arrastavam atraídas pela morte ao cair da noite. Devoradores de Cadáveres.

Hora de correr Alice.

sábado, 3 de agosto de 2013


A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal.

Raul Seixas